Biografia
Hipátia era filha de
Téon, um renomado
filósofo,
astrônomo,
matemático, autor de diversas obras e professor em
Alexandria.
Criada em um ambiente de idéias e filosofia, tinha uma forte ligação com o pai, que lhe transmitiu, além de conhecimentos, a forte paixão pela busca de respostas para o desconhecido. Diz-se que ela, sob tutela e orientação paternas, submetia-se a uma rigorosa disciplina física, para atingir o ideal helênico de ter a mente sã em um corpo são.
Hipátia estudou na Academia de Alexandria, onde devorava conhecimento:
matemática,
astronomia,
filosofia,
religião,
poesia e
artes. A
oratória e a
retórica também não foram descuidadas.
Quando adolescente, viajou para
Atenas, para completar a educação na Academia Neoplatônica, onde não demorou a se destacar pelos esforços para unificar a matemática de
Diofanto com o neoplatonismo de
Amónio Sacas e
Plotino, isto é, aplicando o raciocínio matemático ao conceito neoplatônico do
Uno (mônada das mônadas).
[2] Ao retornar, já havia um emprego esperando por ela em Alexandria: seria professora na Academia onde fizera a maior parte dos estudos, ocupando a cadeira que fora de
Plotino. Aos 30 anos já era diretora da Academia, sendo muitas as obras que escreveu nesse período.
Um dos seus alunos foi o notável filósofo
Sinésio de Cirene (
370 -
413), que lhe escrevia freqüentemente, pedindo-lhe conselhos. Através destas cartas, sabemos que Hipátia desenvolveu alguns instrumentos usados na
Física e na
Astronomia, entre os quais o
hidrômetro.
[3]
Sabemos também que desenvolveu estudos sobre a
Álgebra de Diofanto ("Sobre o Cânon Astronômico de Diofanto"), tendo escrito um tratado sobre o assunto, além de comentários sobre os matemáticos clássicos, incluindo
Ptolomeu. Em parceria com o pai, escreveu um tratado sobre
Euclides.
Ficou famosa por ser uma grande solucionadora de problemas. Matemáticos confusos, com algum problema em especial, escreviam-lhe pedindo uma solução. E ela raramente os desapontava. Obcecada pelo processo de demonstração lógica, quando lhe perguntavam porque jamais se casara, respondia que já era casada com a verdade.
[4]
O seu fim trágico se desenhou a partir de
412, quando
Cirilo foi nomeado
Patriarca de Alexandria, título de dignidade eclesiástica, usado em Constantinopla, Jerusalém e Alexandria. Ele era um cristão intransigente, que lutou toda a vida defendendo a ortodoxia da Igreja e combatendo as
heresias, sobretudo o
Nestorianismo.
[1]
[editar] Intolerância e fanatismo
O reinado de
Teodósio (
379-
392) marca o auge de um processo de transformação do Cristianismo, que efetivamente se torna a religião oficial do estado.
[5] Em
391, atendendo pedido do então Patriarca de Alexandria,
Teófilo, ele autorizou a destruição do Templo de
Serápis, um vasto santuário pagão onde eram oferecidos sacrifícios de sangue, segundo os relatos dos historiadores contemporâneos
Sozomeno e
Tirânio Rufino.
[6]
Embora a legislação de
393 procurasse coibir distúrbios, surtos de violência popular entre cristãos e judeus tornaram-se cada vez mais frequentes em Alexandria, principalmente após a ascensão de
Cirilo ao Patriarcado.
De acordo com o relato de
Sócrates, o Escolástico [7], numa tarde de março de
415, quando regressava do Museu, Hipátia foi atacada em plena rua por uma turba de cristãos enfurecidos. Ela foi golpeada, desnudada e arrastada pelas ruas da cidade até uma igreja. No interior do templo, foi cruelmente torturada até a morte, tendo o corpo dilacerado por conchas de ostras (ou cacos de cerâmica, segundo outra versão). Depois de morta, o corpo foi lançado a uma fogueira.
Segundo o mesmo historiador, tudo isto aconteceu pouco tempo depois de Orestes, prefeito da cidade, ter ordenado a execução de um monge cristão chamado Amónio, acto que enfureceu o bispo Cirilo e seus correlegionários.
[8] Devido à influência política que Hipátia exercia sobre o prefeito, é bastante provável que os fiéis de Cirilo a tivessem escolhido como uma espécie de alvo de retaliação para vingar a morte do monge. Neste período em que a população de Alexandria era conhecida pelo seu caráter extremamente violento,
Jorge de Laodiceia (m. 361) e
Protério (m. 457), dois bispos cristãos, sofreram uma morte muito similar à de Hipátia: o primeiro foi atado a um camelo, esquartejado e os seus restos queimados; o segundo arrastado pelas ruas e atirado ao fogo.
[9]
Dito isto, a eventual relação de Cirilo com o ocorrido continua a ser motivo de alguma controvérsia entre os historiadores. Embora Sócrates e
Edward Gibbon afirmem que o episódio trouxe
opróbrio para a
Igreja de Alexandria, não mencionam qualquer envolvimento direto do patriarca.
[10] O filósofo pagão
Damáscio, por sua vez, atribui explicitamente o assassinato ao patriarca, que invejaria Hipátia.
[11] Contudo, a
Enciclopédia Católica lembra que Damáscio escreveu cerca de um século depois dos fatos e que os seus escritos manifestam um certo pendor anticristão.
[12] As últimas pesquisas crêem que o homicído de Hipátia resultou do conflito de duas facções cristãs: uma mais moderada, ao lado de Orestes, e outra mais rígida, seguidora de Cirilo.